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Street Food: A comida de rua como manifestação cultural

Quem pode ser considerado um chef de cozinha? É o lugar onde ele está ou o sabor da comida que faz? O que vale mais a pena na hora de escolher o que comer? A tradição ou a ousadia? Street Food, série da Netflix, leva os espectadores para nove cidades asiáticas mostrando a diversidade da comida de rua.
Permeada com as histórias dos países, o documentário traz a tona pensamentos sobre “por que as coisas funcionam dessa forma nesse lugar?”. Sobreviventes da pobreza, superação de período de guerras, reinvenção e persistência. O macro se mistura ao micro, quando o diretor se propõe a mesclar a história de vida dos cozinheiros com questões políticas do país, mais a história dos pratos em questão.
Qual o objetivo da série?
A ideia da série documental é expandir o conhecimento sobre cultura. Principalmente no que diz respeito à gastronomia que, acredite, pode ser diferente de formas surpreendentes e inimagináveis! Street Food permite um mergulho nas regionalidades, cultura e gastronomia. Além, é claro, de deixar todo mundo com água na boca (ou não). São pratos completamente diferentes dos ocidentais!
A produção acompanha a vida de mulheres como Jay Fei, da Tailândia, Cho Yoon Sun, da Coreia do Sul e de homens como Toyo, do Japão, e Dalchand, da Índia, que usaram da culinária como forma de ganhar a vida. A série é emocionante: as histórias de vida contadas por ela são de levar lágrimas aos olhos. Pois com expressão dura ou sorridente, esses chefs encontraram sua maneira de sobreviver em um meio hostil e competitivo.
Tradição e inovação são colocados lado a lado na série: há a preocupação em manter costumes, em seguir adiante, de geração em geração, receitas, modos de preparo, pratos típicos… e também as inovações de comida rápida que mistura técnicas globais.
Primeira temporada
Para deixar os olhos brilhando e a boca cheia d’água, as séries que falam de gastronomia seguem alguns padrões: cozinheiros se movendo em câmera lenta, comida sendo preparada em panelas enormes e fumegantes, closes em pratos coloridos enquanto uma mão dá os toques finais.
Na primeira temporada, passeie por Bangkok, Osaka, Séli, Yogykarta, Chiayi, Ho Chi Minh, Singapura e Cebu. Apesar de serem todos países asiáticos, a comida e o que ela representa muda de lugar para lugar. Na Coreia, por exemplo, o mercado Gwangjang significa tradição. Já na Tailândia, as ruas movimentadas tem a ver com interação entre amigos e lazer.
As fortes mulheres asiáticas

No primeiro episódio da série, somos levados à Bangkok, Tailândia. Então, com uma população de mais de 8 milhões de pessoas, é de se esperar que essa capital seja agitada. Pois considerado um patrimônio cultural e forma de interação entre os tailandeses, a comida de rua é uma marca da cidade.
Somos levados ao restaurante da chef Jay Fai: uma senhora de 73 anos que faz questão de cozinhar todos os pratos que serve em seu restaurante. Premiada com uma estrela no guia Michelin por sua omelete de caranguejo, a senhora ainda se surpreende quando é colocada páreo a grandes chefs internacionais.
Ela conta sua história, de uma infância de pobreza, juventude como costureira, para então o início na cozinha, ao lado da mãe e da irmã. Jay Fai sorri pouco e cozinha com semblante fechado: segundo ela, é preciso estar completamente concentrada para preparar seus pratos com excelência.
Street Food na Indonésia
Yogyakarta, na Indonésia, é uma cidade parada no tempo. Situada na ilha de Java, é a única no país ainda governada por um sultão. Apesar de algumas receitas serem revitalizadas e reinventadas, para as pessoas mais velhas é quase uma traição modificar fórmulas milenares. Mbah Satinem é conhecida por sua receita de Janjan Pasar, um doce tradicional.
A senhora não sabe quantos anos tem: vinda de uma família pobre, ela conta que era muito próxima da mãe, com quem saía a vender doce de porta em porta. Mas agora, com ajuda do marido e da filha, ela prepara os doces que venderá durante o dia em uma barraca simples e improvisada numa das esquinas da cidade.
É preciso enfrentar horas de fila para comer o tradicional Janjan passar de Mbah. Ela ri enquanto prepara os doces montados sobre um pedaço de folha de bananeira. “Quero trabalhar até ficar bem velhinha, depois, vou passar a receita para a minha filha”.
Grace cresceu em meio aos pais, na barraca de sopa de cabeça de peixe da família. Desde pequena, ajudava a lavar os pratos, fazer contas e servir os clientes. Assim, na cidade considerada a cozinha de Taiwan, Chiayi, Grace se interessou pelo negócio muito jovem, e hoje comanda a barraca dos pais. A jovem sempre propõe melhorias, como o delivery e pedidos pela internet, mas não se atreve a modificar o prato.
Street Food em Seul
Em Seul, capital da Coreia do Sul, somos convidados à participar do dia a dia de Cho Yoon Sun. Esse episódio é muito interessante, em especial, pois a cozinheira fala sobre como os coreanos lidam com as emoções. Ela apresenta o conceito de han: os sentimentos ruins que guardamos dentro do coração.
Com um sorriso no rosto, Cho Yoon Sun nos conta como foi o caminho para chegar até o reconhecimento dentro e fora do mercado de Gwangjang. Ela trabalha no mercado há décadas, preparando seu macarrão cortado na faca, ou seja, macarrão artesanal. A receita foi passada de mãe para filha.
Vendendo comida de rua, a coreana conseguiu pagar a universidade dos dois filhos, um deles, formado em gastronomia. Nas cenas finais do episódio, é emocionante a visita da mulher ao restaurante onde o filho trabalha como chef. Mãe e filho demonstram admiração mútua, conectados pela culinária.
Os homens da Street Food

“É melhor ser a cabeça da galinha que o rabo do touro” é o que diz o senhor de expressão cansada e sorriso de resistência, Toyo. Ele é dono do Izakaya Toyo, em Osaka, Japão. Toyo conquista seus clientes o bom humor, como um avô cuidando dos seus netos. Segundo ele, a barraca é sua casa e seus clientes, sua família.
A história de vida de Toyo perpassa a história do seu negócio: um pai violento, a necessidade de sair do interior para trabalhar, a assustadora e, ao mesmo tempo, acolhedora Osaka, a cidade onde “os sonhos se realizam”.
Quando se pensa na Índia, a primeira imagem que vem à mente é uma vida de rua agitada: pessoas se esbarrando, barracas de comida, motos… Com uma história conturbada de independência, a capital, Déli, é uma mistura de gastronomias milenares.
Foi nesse cenário que Dalchand Kashyap cresceu. Sobretudo, acompanhando o pai em sua barraca de comida durante muitos anos, ele viu a família se desestabilizar após a morte do pai: a barraca foi fechada, precisaram mudar de bairro, um dos irmãos se envolveu com drogas.
Após um longo tempo tentando ganhar a vida de outras maneiras, Dalchand resolveu tentar reunir a família novamente através da comida. Juntou suas economias, chamou o irmão, a esposa e os filhos e começaram uma nova barraca de comida.
Seguindo as palavras do pai “não se importe tanto com dinheiro. Se a comida for boa, as pessoas vão voltar”. E as pessoas voltaram! Agora é preciso fazer fila para comer da comida de Dalchand.
Ficha técnica:
Título: Street Food: Volume 1: Ásia
Ano de produção: 2019
Estreia: 26 de abril de 2019 (Brasil)
Episódios: 9
Duração: 279 minutos, média de 30 minutos por episódio.
Classificação: Não recomendado para menores de 10 anos
Gênero: documentário
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